Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

"dÉJÀ vU" (?)

O caro amigo PortoMaravilha, docente do ensino francês,  teve a amabilidade de me enviar um texto no qual reflete sobre um relatório da OCDE relativo a politicas educativas pouco (ou nada) conhecido por cá apesar da sua antiguidade, e sobre o qual inclusive se deu ao trabalho de traduzir um trecho. Mais abaixo são fornecidos os links da versão francesa bem como da inglesa em pdf do dito relatório da OCDE, o qual só mesmo lendo para crer... 

Cabe-me pois mais uma vez mostrar-me grato por tal partilha de reflexões com que o PortoMaravilha faz o obséquio de  brindar o bLOGUE gERAÇÂO, bem como , claro, convidar-vos a sua leitura, estimulando-vos igualmente à vossa reflexão.

E depois digam-me lá - sendo alguns dos exemplos e vivência do PortoMaravilha alusivos à realidade francesa - que outro tema  dariam vocês a este post? É que eu ainda pensei, pensei, mas não me ocorreu mais nenhum...

 

Tem a palavra, PortoMaravilha.

______________

A OCDE programou a liquidição do ensino público em 1996  !

Em todos os países europeus o Serviço Público de Educação é alvo de restrições orçamentais desde, pelo menos, uma quinzena de anos . Tais restrições tocam todos os postos de trabalho   da instituição escolar pública ( cozinheiros, mestres de obras, bibliotecários, professores...).

A estas restrições acrescentam-se aspectos que se encadeiam numa lógica desconcertante.

Vejamos, esquematicamente :

1.O Saber não interessa !


Os alunos passam de ano sem terem o mínimo de conhecimentos necessários. Os diplomas são atribuidos não em função dum real saber, mas em função de percentagens de vagas decididas por um “obscuro” cume hierarquico. O respeito destas percentagens serve para justificar o bom funcionamento da instituição.

2. As Condições de Trabalho não interessam !

O ritmo fisiológico dos alunos não é respeitado. Ignora-se o funcionamento psicológico dos estudantes. O escalonamento das férias com zonas escolares diferentes (  caso da França ) obedece aos interesses da indústria turística e das suas componentes.
O silêncio não existe. Estuda-se no alarido dos gritos do recreio, do corredor e, por vezes, da própria aula.

3. A Regra  não interessa !

Os professores já não têm qualquer autoridade. Misturam-se alunos aplicados com delinquentes. Chama-se, recorrendo a eufemismos que adormecem a opinião, “incivilidade” às agressões diárias, esquecendo que estas revelam da deliquência. Os conselhos  de disciplina vão desaparecendo. A violência instala-se. E quando um professor é vítima duma tentativa de assassinato ( França, Outubro 2008 ), a sua hierarquia nega  qualquer responsabilidade.

4. O Professor não interessa !

A administração dá o exemplo. Viola as regras, recusando qualquer protecção estatutária daquele que é atacado no exercício das suas funções. Podem ,assim, circular vídeos na net, com toda a impunidade, que mostram uma professora no chão a ser pontapeada por dois ou três dos seus alunos . E, quando os  professores se opõem a estas derivas, a administração tudo faz para calá-los. É que se são espancados é porque não recorrem à pedagogia adequada.

5. A estratégia da OCDE interessa !

Podemos ser ingénuos, mas sabemos ler. O relatório da ocde de 1996 intitulado “La faisabilité politique de l’ajustement” é esclarecedor.

Como se sabe a palavra “ajustement” ( ajustamento, disposição) é uma espécie de dogma para todos os governos e entidades patronais. Esta palavra é um eufemismo que só os iniciados podem compreender. Ajustamento significa destruição. E, por sua vez, “fazebilidade política” (“faisibilité politique”) significa prevenção de revoltas susceptíveis de verem o dia por causa dessa destruição.

O extracto da página 30 do relatório referido é eloquente. O relatório pode ser consultado na internet, em pdf, quer em versão Francesa quer em versão Inglesa: “ocde, cahier de politique économique nº 13, 1996 “

Passo a traduzir. Se nem sempre traduzir é fácil, penso que a tradução está fiel.

“... Se se diminui as despesas de funcionamento há que velar por não diminuir a  quantidade de serviço, sob pena de que a qualidade baixe. Pode-se reduzir, por exemplo, os créditos para o funcionamento das escolas ou das universidades, mas seria perigoso de restringir o número de alunos ou de estudantes. As famílias reagirão violentamente a uma recusa de inscrição dos seus filhos, mas não a uma baixa gradual da qualidade do ensino e a escola pode, progressiva e pontualmente, obter uma contribuição das famílias ou suprimir tal  actividade. Isto faz-se, passo a passo, numa escola , mas não na  escola vizinha, de maneira a evitar um descontentamento geral da população. “

E , evidentemente, os responsáveis da ocde afirmam que o artigo é da responsabilidade do redactor, Christian Morrisson ( conselheiro da ocde ), e não da instuição-ocde.

Que futuro para amanhã ?


_____________
E Viva o Porto !

Observação : Tomei conhecimento deste relatório da ocde, graças ao texto de Paul Villach , publicado no nº 584 da publicação “Respublica”.

 

:::: digam lá, déjà vu?

MrCosmos às 00:01
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9 comentários:
De Pedro Oliveira a 7 de Janeiro de 2009 às 09:07
Apetece dizer que a m+++da é a mesma, o sotaque é que é diferente.Por onde vais Europa?


De MrCosmos a 7 de Janeiro de 2009 às 13:42
Isto é de facto uma "união" europeia...


De Portomaravilha a 7 de Janeiro de 2009 às 21:24
É de facto um texto bem questionante. Eu quando li o extracto que traduzi fiquei quase com a cabeça a andar à roda.

Se não acompanhasse e investigasse com os estudantes que preparam Sciences Politiques, nunca teria tido saber do relatório.

Por vezes, tenho a impressão que o nosso Mundo lembra a época da Idade Média Baixa. Em que o saber estava nas mãos de quem sabia ler o latim.

Por isso se fabricaram os vitrais. Para que quem não soubesse ler pudesse acompanhar a "História Oficial". Mas quando observamos bem nos vitrais há sempre um detalhe interessante. Afinal, sempre pensamos mesmo se somos menos resistentes que as bactérias.

Voltando à vaca fria como dizem os meus amigos gaúchos lá de Porto Alegre.

Assim, melhor se compreende que, por estas terras, quer seja um ministro de direita da educação ou um ministro de esquerda da educação, nada muda.

Há uma continuidade disfarçada com adjectivos diferentes.

É de começar a pensar se os estados ainda têm peso político ?

Atenção : Não sou nenhum nilista !

Eu, talvez por ter conhecido quem conheceu os campos da morte, ( mas faço parte da última geração que ouviu ao vivo relatos desses horrores do nazismo ) sou pela Europa. Esta trouxe-nos a paz durante duas gerações. Algo que até então nunca tinha existido no solo europeu ( veja-se a história da França/Alemanha).

Todavia, sou por uma Europa em que o Parlamento Europeu deve ter um papel constitucional e não consultativo.

Que andam o Durão Barroso e os outros comissários lá a fazerem ? São controlados por quem ? São eleitos por quem ?

Aqui tem nevado e gelado como nunca. As temperaturas chegaram ontem à noite a menos 18. "Du jamais vu " :- ) ! Com o frio a neve fica gelo. O pátio da nossa "cité scolaire e universitaire" ficou gelado. Isto é, uma autêntica pista de gelo.

A administração política ou administrativa não deitou sal nem areia o que permite dissolver o gelo, evitando as escorregadelas e os braços partidos.

Fomos reclamar junto da prefeitura ( coisa que pode ser comparada aos antigos governos civis ). A resposta foi extra-terrestre. Não temos posses. O nosso orçamento para 2009 ainda não foi votado, etc., etc.

Como é ? : Um dos países mais ricos do mundo não tem dinheiro para comprar sal e areia ?

Mas lá foi sugerido que se os serviços da prefeitura tivessem mais mobilidade talvez fosse mais fácil. Descorticando : Se os serviços actuais e publicos fossem privatizados ...

É isso mesmo Mr Cosmos : A União Europeia actual !

Quando andava no propedeutico ( vivia então na Picardie) a meios da década 70, tive um prof de filosofia ( fumava gauloises nas aulas) que nos dizia : Leiam "O melhor dos mundos" de Huxley e "1984" de G. Orwell. O Big Brother. Compreenderão o mundo de amanhã !

A gente ria muito. Eram leituras descabidas para a época, para quem convivia com os mais velhos que tinham ocupado a Sorbonne e levantado barricadas.

Hoje, agradeço o seu ensino e sua paciência !

Para completar a minha mensagem ao post anterior.

Ano Horrível ?

Somos nós que fazemos os anos ! E não os anos que nos fazem.

Para terminar : O frio invulgar que está a assolar a França lembrou-me um excelente editorial que li, aquando umas férias merecidas, há dois anos, nas praias da Manche ( o meu filho goza comigo, dizendo que sem nevoeiro e com binóculos se pode ver a Britânia ).

Foi no "Ouest France". Excelente jornal regional.

Pois bem : O editorialista lembrava que a espécie humana tinha, pelo passado, ganho a luta contra o frio.

Mas acrescentava que nada indica que, num futuro próximo, a espécie humana possa ganhar a luta contra as mudanças climáticas brutais e contra o "efeito de serra actual".

Desolado porque :

Não faço parte de nenhum partido. Não tenho cartinhas, nem cartas, nem cartões para vender.

Sim : Que cada um se assuma !

"Et ça c'est du jamais ou du déjà vu" ? ! :-)

E Viva o Porto !






De MrCosmos a 7 de Janeiro de 2009 às 22:19
Não me importava de ser (ou ter sido) teu aluno. Quando te reformares, vê lá se vens cá dar umas aulas para a terrinha.
Bem hajas, PortoMaravilha.


De Pedro Oliveira a 8 de Janeiro de 2009 às 11:44
Este Portomaravilha é um excelente comentador residente do Geração Rasca!
Muito bem, um dia destes passe ali ao lado e diga de sua justiça, abraço!
J' áime Paris. A minha cidade eleita, nasci lá...


De MrCosmos a 8 de Janeiro de 2009 às 15:06
PortoMaravilha:
O "alí ao lado" que o Pedro refere é aqui: http://vilaforte.blogs.sapo.pt - recomenda-se!


De Portomaravilha a 8 de Janeiro de 2009 às 20:44
Já consultei várias vezes o Blog do Pedro.

É um blog que me agrada. É regional e é preciso !

E é claro que vou lá ir consultar e comentar.

O único problema que tenho é a terceira pessoa.

Será que tenho que escrever : Como está o Pedro ? E o Portomaravilha como está ?

Tudo na terceira pessoa ?

Nossa !

E o César ( Lol ) como vai ? Não tu, Mister, o outro !

Fora de brincadeiras. Claro que vou comentar.

Tanto mais que há lá um texto muito interessante sobre as rotundas que têm tendência a substituir os cruzamentos com semáforos.

E Viva o Porto !





De MrCosmos a 8 de Janeiro de 2009 às 21:28
Então dá-lhe, com as rotundas!


De pedro oliveira a 8 de Janeiro de 2009 às 22:57
meu caro,
fico satisfeito que o vila forte lhe agrada.o nick nunca será problema no vila, muito mais quando o contributo é da qualidade patente no GR do meu amigo Paulo.É muito bem-vindo.


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